🧫 Doenças Renais em Pequenos Animais: Como a Bioquímica e a Urinálise Revelam o que o Corpo Esconde
- Inaê Regatieri
- 8 de set. de 2025
- 3 min de leitura
Interprete ureia, creatinina, SDMA e urinálise com mais segurança e precisão clínica
Introdução
A insuficiência renal é uma das condições mais comuns e desafiadoras na clínica de pequenos animais.
Muitas vezes silenciosa em seus estágios iniciais, ela só se manifesta quando o dano já compromete a função de boa parte dos néfrons.
Por isso, é essencial que o veterinário domine a interpretação dos principais exames bioquímicos e urinários.
Uma leitura precisa pode permitir diagnóstico precoce, monitoramento eficiente e melhor orientação terapêutica.
🧬 Por que a função renal deve ser avaliada de forma integrada?
Os rins desempenham funções vitais:
Filtração de toxinas e metabólitos
Regulação da pressão arterial e equilíbrio hídrico
Produção de hormônios (como eritropoetina)
Controle ácido-base e eletrolítico
Uma falha renal pode impactar todo o organismo. Por isso, os marcadores laboratoriais devem ser avaliados em conjunto com o histórico, sinais clínicos e imagem diagnóstica.

🧪 Exames bioquímicos essenciais na avaliação renal
✅ Ureia
Formada no fígado a partir da degradação de proteínas e eliminada pelos rins
Aumento (uremia): pode indicar disfunção renal, desidratação, choque, hemorragia gastrointestinal, febre, uso de corticoides
Redução: insuficiência hepática ou dieta pobre em proteínas
A ureia é influenciada por múltiplos fatores e deve ser avaliada em conjunto com a creatinina e a urinálise.
✅ Creatinina
Derivada do metabolismo muscular, é eliminada exclusivamente pelos rins
Aumento: indica queda da taxa de filtração glomerular (TFG), especialmente quando os níveis ultrapassam os valores de referência
Redução: associada à perda de massa muscular, super-hidratação, gestação ou shunt porto-sistêmico
📌 A creatinina é considerada mais específica que a ureia para avaliação renal — mas pouco sensível nos estágios iniciais da doença.
✅ SDMA (Simétrica Dimetilarginina)
Biomarcador precoce da função renal, que se eleva com apenas 25% de perda funcional
Mais sensível e específico que a creatinina
Não é influenciado pela massa muscular
Indicado para monitoramento da DRC e detecção precoce de lesões renais
💡 Ideal para pacientes com risco renal, como idosos, animais sob tratamento com medicamentos nefrotóxicos ou em quadros infecciosos.
✅ Urinálise: o exame mais negligenciado e um dos mais reveladores
A urinálise permite avaliar:
Densidade urinária
pH e presença de proteínas, glicose, cetonas, bilirrubina
Sedimento urinário (células, cristais, cilindros, bactérias)
Cor, odor e aspecto físico da urina
É essencial para identificar:
Perda de capacidade de concentração
Proteinúria
Inflamação do trato urinário
Infecções, cálculos e neoplasias
📌 A coleta ideal deve ser feita por cistocentese, para garantir esterilidade e precisão do resultado.
✅ Azotemia: pré-renal, renal ou pós-renal?
Com base em ureia e creatinina, é possível diferenciar o tipo de alteração:
Azotemia pré-renal: queda na perfusão renal (ex: desidratação, choque, insuficiência cardíaca)
Azotemia renal: perda estrutural e funcional dos néfrons (ex: nefrite, intoxicação, DRC)
Azotemia pós-renal: obstruções ou rupturas no trato urinário (ex: urolitíase, neoplasia)
💡 A densidade urinária e o histórico clínico ajudam a diferenciar essas condições.
🐾 Exemplo clínico resumido: diagnóstico precoce de DRC
Gato idoso, 13 anos, com histórico de hiporexia e perda de peso. Exames revelam:
Creatinina dentro do limite superior da referência
Ureia discretamente aumentada
SDMA elevado
Densidade urinária baixa (1.018)
Proteinúria discreta
Interpretação: Doença renal crônica em estágio inicial, ainda sem sinais clínicos evidentes, mas com função renal comprometida. O início precoce da dieta renal e suporte terapêutico pode prolongar a qualidade de vida do paciente.
✅ Benefícios de dominar a interpretação dos exames renais
Diagnóstico precoce de disfunções que ainda não se manifestaram clinicamente
Tomada de decisão baseada em evidência e não apenas em sintomas
Melhor acompanhamento de casos crônicos e evolução terapêutica
Redução de erros diagnósticos e uso desnecessário de antibióticos ou fluidoterapia

Conclusão
A avaliação da função renal vai muito além da creatinina. Quando combinamos ureia, SDMA, urinálise e contexto clínico, temos um cenário claro para identificar, monitorar e tratar precocemente as doenças renais — oferecendo mais qualidade de vida aos animais e mais segurança ao profissional veterinário.




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